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COLUNISTAS

O motivo

Publicado por Passeio, por Elton Tada, 10:30 - 10 de Janeiro de 2019

De vez em quando tenho vontade de fazer algo mais significativo para o coletivo. Mas, não se trata da culpa cristã batendo à porta e pedindo que eu me justifique por qualquer coisa. É um desejo intenso de ter me tornado qualquer coisa mais útil para o mundo. E quando me sinto assim começo a pensar em uma das coisas mais perturbadoras que já ocuparam minha mente, a simples questão: “o que move as pessoas!?”.


Veja bem, para tudo há que se dispensar alguma força inicial, um ônus, um motor erótico, gerador de vida, que traz aquilo que não existia para a existência. Por exemplo, um jovem vestibulando tem que estudar muito para passar no vestibular. E o engraçado é que nessa idade as pessoas não são exatamente super responsáveis e conscientes de seus atos. Ainda não se vive a maior idade. E se não é pela certeza da profissão que se escolhe, então o que é que move tanto estudo? A pressão familiar, o desejo de dinheiro, o ímpeto de mostrar que consegue fazer algo que muitos outros não conseguem? Realmente não sei. Outro exemplo que me chama a atenção são das pessoas bem sucedidas, empresários, intelectuais, funcionários públicos, que em determinado momento da vida se lançam na política para serem pressionados e criticados pela opinião pública. Qual será o motivo?


Em geral eu acredito que a sensação de poder é o que move as pessoas. Ou seja, você faz tudo que precisa ser feito para sentir que tem determinada quantidade de poder em suas mãos. É por isso que pessoas pequenas falam alto ou porque filhinhos de papai imprestáveis andam com grandes caminhonetes. Existe uma sensação compensatória. Mas, mesmo assim, parece que essa explicação não resolve todos os casos.


De vez em quando me sinto profundamente tocado pelo mito de Lúcifer. Sério, tirando o imaginário tosco que temos do Diabo, essa história é muito interessante. Um anjo que figurava entres os grandes, um dos maiores seres celestiais é condenado a ser o gerente do inferno, o CEO da condenação eterna. Mas – e vejam como os detalhes importam –, não é ele o criador do mal. Ele é julgado pelo mal que comete, pois o bem e o mal são as possibilidades da existência, tanto humana quanto divina. Em resumo, dá pra entender a revolta de Satã, pois ele foi justamente injustiçado, é condenado por aquilo que todos os seres humanos desejam, ter o poder eterno, ser maior que o próprio pai.


Acho que é hoje que enlouqueço. Pensar no motivo é pesado demais. Creio que é melhor viver o trivial. Vou trocar o óleo do carro, me preocupar com os quilos a mais. Pois se eu pensar mais uma vez em quais os motivos para a ministra dos Direitos Humanos dizer que viu Jesus na goiabeira, minha racionalidade vai pedir licença premium remunerada. Se eu tentar entender por que o juiz prendeu um candidato e se tornou ministro do segundo candidato, vou acabar descrendo na validade da ética. E se isso acontecer, me tornarei um deles. Penso que não há castigo pior do que se tornar aquilo que você despreza.


Acho que o motivo é que somos todos crianças. Queremos ser maiores que nossos pais, maiores que Deus, só pra ter a sensação de que foi preenchido o vazio.

Bloco de Imagem

Foto: Ilustrativa/Pixabay

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