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COLUNISTAS

Salvação

Publicado por Elton Tada / Passeio, 10:00 - 02 de Agosto de 2019

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pixabay

Por vezes vejo algumas pessoas que são tão bonitas que penso que não há outra explicação a não ser a misericordiosa criação divina. Depois, olho para nós, os mortais, e vejo que deus seria um grandioso gênio perverso se tivesse criado a beleza para distribui-la em desigualdade. Lembro, chateado, que não sei de onde tirei a ideia de que deus seria justo. Lembro, ingenuamente esperançoso da frase do poeta professor que agora conta causos do outro lado do rio: fora da beleza não há salvação!



A beleza é algo tão supra-humano que não ouso pensar sobre ela até mais tarde. Aceito-a. Mas, para enfrentar o tédio que é próprio dos dias comuns, penso irreverentemente: que história é essa de salvação? Sim, dediquei minha vida - até aqui, quem sabe - no estudo das religiões e ainda fico fascinado ao entender algumas ideias de salvação. E todas, sempre, tem algo a dizer sobre isso. Me pergunto, desafiando o decoro, mas não o respeito, salvar do quê?



Eu sei o quanto é chato falar sobre isso, mas me parece muito que a ideia de perdição é apenas um jeito mais polido de tentar desviar o medo da morte, do medo crônico de uma existência sem sentido. Mas a existência, meus amigos, é isso mesmo. Não somos deuses nesse mundoe não hemos de ser. Quando muito somos protagonistas de algumas partes de nossa própria história. Muitas vezes somos apenas mais alguém na lógica do mercado. Trabalhadores brevemente remunerados para que se evite a percepção da escravidão que é latente. O regime escravagista foi suspenso, a mente, nem tanto. Por isso entendo o medo de morrer depois de se viver desse jeito. Se a vida fosse outra talvez pudéssemos aceitar, morremos e pronto.



A pergunta -errada - que faço hoje é bem simples. Se não existir paraíso algum e se nenhum anjo estiver te esperando no fim das contas, ainda assim sua vida valeu a pena? Valeu a pena reprimir seus filhos, discriminar outros por sua cor, seus bens, sua sexualidade? Em outras palavras, quem seríamos se não houvesse esperança alguma de viver depois da morte?



Entendo, por hora, que as coisas não são justas e não aceito. Me obrigue a aceitar! Enquanto isso, continuo crendo amedrontado: fora da tua beleza não há salvação. Nunca haverá.

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