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COLUNISTAS

O DECLÍNIO DE UMA NAÇÃO

Publicado por Elton Telles, 09:40 - 26 de Junho de 2019

Com “Democracia em Vertigem”, a jovem cineasta Petra Costa precisou fazer escolhas narrativas e considerar novos recortes para que o filme não caísse no chamado “efeito papagaio” e somente reproduzir o que antes já foi dito. Afinal, da mesma forma que o longa documenta os desdobramentos que culminaram no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em “O Processo” e “Excelentíssimos” (ambos lançados em 2018), seus realizadores também traçam um panorama sobre o mesmo mecanismo, alternando imagens do que acontecia no interior dos prédios governamentais de Brasília com manifestações anticorrupção nas ruas de todo o país.


Costa fez exatamente a mesma coisa, por isso, a importância em considerar a forma que se vai apresentar o conteúdo. Maria Augusta Ramos com “O Processo” opta por uma imparcialidade inalcançável e desaparece por trás das câmeras, jamais se colocando explicitamente como personagem. A cineasta, no entanto, esclarece seu posicionamento político por meio da edição e da montagem. O mesmo se aplica ao diretor Douglas Duarte com o seu documentário “Excelentíssimos”, que também parte da intercalação de cenas – um tanto afobada e repetitiva – para se fazer presente. Já “Democracia em Vertigem” conta com narração em primeira pessoa, e aí residem pontos positivos e negativos que pretendo destrinchar nos parágrafos seguintes.

Foto

Foto: Agência Brasil

O espectador é guiado pelos olhos de Petra Costa, que o convida a tentar compreender as motivações da atual derrocada política no Brasil, um cenário próximo à distopia que coloca em xeque tantos direitos já conquistados. Não há dúvidas da importância deste filme como um documento histórico do nosso país, e o didatismo é bem-vindo pela transparência dos fatos, sempre amparados por ótimas imagens de arquivo e tantos outros momentos inéditos que a câmera da diretora foi feliz em alcançar. A avaliação dos fatídicos episódios é lúcida e podemos detectar maturidade nas observações de Costa, ainda que sua voz seja um tanto adolescente e denuncie o despreparo vocal como narradora.


“Democracia em Vertigem” traz alguns insights excelentes, como o desfile na passarela do Palácio da Alvorada com os ex-presidentes Dilma e Lula, acompanhados da ex-primeira dama Marisa e um vice Michel Temer completamente deslocado, ou vale mencionar a entrevista com uma das faxineiras do Palácio, uma opinião nem sempre ouvida de alguém “de dentro”. Fora isso, o texto se mostra competente na maior parte do tempo, porém jamais original ou com sabor de novidade. Entretanto, embora autenticada, esta percepção me soa um tanto fugaz, porque ainda estamos no calor do momento, vivenciando os reflexos do golpe e consumindo todos os dias informações referentes a este atentado à justiça brasileira. E “Democracia em Vertigem”, como já mencionado, é útil para entender o agora tanto quanto um importante testamento para ser usado na posteridade.


Algo que chama a atenção no documentário, bem como em seu filme de estreia, o emocionante “Elena” (2012), é a exposição que Costa faz de sua família. A mãe da cineasta, uma prisioneira política da Ditadura, ocasionalmente aparece opinando sobre algo a pedida de Petra, que é neta de um dos fundadores da construtora Andrade Gutierrez – envolvida na Operação Lava Jato –, e ainda revela ligações da família com o atual deputado Aécio Neves, rival de Dilma nas urnas. A própria diretora demonstra decepção quando diz que muitos de seus familiares votaram em Jair Bolsonaro nas últimas eleições. De origem abastada, é surpreendente presenciar os ponderamentos de alguém cujos parentes – e ela própria, direta ou indiretamente – se beneficiaram de privilégios.


Na mesma medida, a inclusão de sua história na história do Brasil pode ser um tiro no pé, a começar pelos problemas de identificação de boa parcela do público. Não acho que há colisão de ideias, mas a escolha de Petra de se posicionar à frente de seu objeto de pesquisa/análise pode ser uma lamentável distração em vez de enriquecer o material com registros mais proeminentes ou análises mais inspiradas. Isso me remete aos documentários políticos do norte-americano Michael Moore: gosto e compartilho de seu posicionamento democrata, mas acho cansativa e desnecessária a autoindulgência exacerbada.


Mesmo que não acrescente novos ângulos a um tema desgastado pela repercussão diária e ainda recorrente, “Democracia em Vertigem” traça um competente resumo, sob uma perspectiva pessoal, da ruptura sócio-política nacional. Dentre os filmes que relatam o golpe parlamentar de 2016 citados no começo desta crítica, este é o mais bem resolvido. Talvez hoje seja encarado apenas como um “produto do momento”, porém certamente terá reconhecimento no futuro a ponto de garantir lugar cativo no hall das importantes obras políticas da cinematografia brasileira.

4 estrelas

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